Como vocês já sabem, sou veterinária. Daquelas que sempre quis ser veterinária. Desde criancinha. Que sempre foi chamada de Maria Cachorreira, que queria pegar bicho na rua e levar pra casa, mas que nunca fez isso porque a mãe não deixava. E tinha pais que não eram fãs de ter animais, mas vez ou outra cediam para alegrar a caçulinha. E nisso, minha irmã e eu tivemos cachorro, gato, periquito, hamster e até pintinho colorido artificialmente ganhado na porta da escola. Mas, para minha tristeza, nunca ficavam conosco muito tempo. Até que chegou a hora de prestar vestibular. Eu tinha decidido aos seis anos de idade o que queria "ser quando crescer" e corri pro meu sonhado curso de veterinária.
Impulsionada pelo sonho de salvar animais.
Mas, lá chegando me desviei do foco. Acabei indo para área de produção de carnes. No início sofria para ir ao abate, chorava ao ver os animais cumprindo seu triste destino. Mas fui me acostumando. Sempre comi carne. E isso nunca foi um incômodo. Era um hábito. Cultural. E, como veterinária que trabalhava neste meio, acreditava que devia estimular o consumo de carne e não entendia direito os vegetarianos (principalmente se também fosse veterinário). Até os critiquei.
E assim seguia minha vida, até que um dia sofrendo (por motivos alheios ao consumo de carne) por estar trabalhando na empresa de abate de suínos, uma amiga (Vanda, sua linda! Te amo!) disse que os ambientes, nos quais, se matam animais despertam o pior do ser humano. E apesar de nada mudar em minha rotina, aquilo me impressionou. Estava eu me tornando o pior de mim sem perceber? Perdendo minha sensibilidade e amor ao próximo?
Anos depois, li em um outro blog da minha amiga Karine algo do tipo: é injusto amar uns e matar outros. E novamente me marcou. E comecei a questionar minha relação com os animais. Odiava rodeios, touradas e animais em circos. Morria de dó de cães e gatos de rua, mas comia porcos, vacas e galinhas. Não gostava de ve-los morrendo para se tornar carne, mas já na mesa não me repudiavam. E de tanto trabalhar nisso, parei de enxerga-los como seres vivos. E sim, como simples e literais pedaços de carne! Até que recentemente, motivada por um livro, senti a necessidade de tentar abandonar parte desse hábito.
Não como mais carne bovina.
Pronto! É só dizer que não come carne bovina que as discussões e piadas começam. Reações que eu mesma já tive com outras pessoas. Mas, peraí? Porco, galinha, peixe podem morrer e virar churrasco e vaca, não? Você não virou vegetariana, você virou indiana! Ahh, nem vendo o churrasco quentinho na sua frente, não dá vontade? Pega só um pedacinho! Não é hipócrita comer umas espécies e outras não? Você acha mesmo que é só a carne que você utiliza do animal? E o couro que senta? O chiclete que mastiga? O sabão que lava suas roupas? O rato do esgoto você não tem dó de matar, né?
Não estou dizendo que estou correta e que todo mundo deveria fazer o mesmo. Ou que isso resolverá todos os problemas do mundo em relação ao animais e a maneira como nos relacionamos e os utilizamos no nosso dia-a-dia ou, muito menos, que sou mais evoluída que você que curte um churrasquinho. Mesmo porque ainda estou profissionalmente ligada a todo esse processo. Mas, senti essa necessidade. E decidi tentar.
E passei do lado das perguntas para o lado das explicações (incluindo o marido). E o engraçado é que nunca precisei explicar (com argumentos que convençam as pessoas, ainda por cima) porque eu não como chuchu ou acelga. Todo mundo se conforma e me oferece outra coisa. Socialmente, é difícil não querer consumir carne. Como hábito também. Meu desejo maior era conseguir não comer nenhum tipo, mas ainda não consigo. Mal conheço receitas sem carne. Até macarrão eu faço com carne. Estou em um processo de adaptação, de descoberta do que quero com isso e onde quero chegar.
E com isso, por toda essa pressão social, me vi escondida em um armário semi-vegetariano tentando com que as pessoas mais próximas não percebessem que eu estava separando a carne do meio do strogonoff ou recusando aquele irresistível convite de ir a churrascaria.
Até que me vi contando em tom de confidência a Karine (que entende melhor disso que eu) que não estava mais comendo carne de vaca e percebi o ridículo da situação. Não estou fazendo mal a ninguém. Não quero que você pare de comer carne por mim. Não me importo de te ver comer carne. Nem quero entender os motivos pelos quais você consome carne. Não vou te amar menos por isso.
Só peço que façam o mesmo por mim.